segunda-feira, 14 de março de 2011

O sedentário “atleta” de fim de semana

Para ilustrar os problemas que a vida moderna provoca em termos de sedentarismo e adoção da “lei-do-menor-esforço”, bem como das informações inadequadas a respeito de exercícios físicos, vamos considerar em uma pequena história um período da vida de um personagem imaginário.

O nosso herói é um executivo de razoável condição socio-econômica com idade entre 30 e 40 anos, casado, pai de 3 filhos, morador em um apartamento de classe média, com uma vida de trabalho intenso e estressante durante a semana e portador de um indesejável e anti-estético excesso de peso. Logicamente seu trabalho é quase exclusivamente dentro de um escritório o que torna sua vida totalmente sedentária.

A nossa historia tem início em uma sexta-feira logo pela manhã. Ao acordar este senhor inicia sua higiene pessoal no banheiro, usando sua escova de dentes elétrica, e faz a barba com seu barbeador elétrico. Após trocar de roupa toma apressadamente seu café e dirige-se para o elevador. Ao descer no estacionamento do prédio, regogisa-se com a localização da vaga onde estaciona seu carro.

Logo ao lado da porta do elevador! Esta foi uma conquista obtida após árdua batalha na última reunião de condomínio.  Liga seu carro, aperta o botão para baixar o vidro elétrico e dirige-se para o escritório. Ao chegar,  nova satisfação. Sua última promoção lhe deu o direito de estacionar em vaga privativa também à poucos metros da porta de entrada. 

Novo passeio de elevador e sua mesa com a confortável cadeira já estão à sua frente. Ali ele permanece praticamente durante todo o dia. Afinal de contas um interfone dá acesso à sua secretária que se desloca sempre que necessário para evitar que o doutor sequer levante da cadeira. O banheiro está logo ao lado, cafezinho é servido na mesa de hora em hora e o lanche que substitui o almoço o boy foi buscar no fast-food mais próximo. O computador que não poderia faltar, da acesso ao longo do dia a todas as informações necessárias ao simples toque de teclas.

Após quase dez horas sentado ele se dirige de volta para casa para um merecido fim de semana. Usufruindo novamente dos confortos do seu status ele chega em casa e encontra sua esposa pronta para sair. O programa será algumas compras no shopping e um jantar na praça de alimentação.

Muito a contragosto cede ao desejo da esposa, uma vez que sua animação se transformada em frustração estragaria todo o final de semana (inclusive o clima de romance esperado para o sábado à noite).

Ao chegar no shopping, foram necessárias várias voltas de carro pelo estacionamento até que se pudesse localizar uma boa vaga, bem próxima dos elevadores, é lógico! Ao entrar no shopping propõe à esposa ficar sentado na praça de alimentação tomando um chopinho com um tira-gosto enquanto ela faz as compras. 

Cerca de uma hora e meia e meia dúzia de copos de chope após chega a esposa cheia de pacotes. Surpresa! Preocupada com a vida sedentária e o excesso de peso do marido, resolveu adquirir um lindo agasalho esportivo e um caríssimo par de tênis importados para convencê-lo a fazer exercícios. Bom, isto seria problema para o dia seguinte, naquele momento o importante era jantar lautamente já que a fome era prioridade.

Após o exagero do jantar ele chega em casa caindo de sono e cai na cama não sem antes prometer à mulher que no dia seguinte logo pela manhã estaria estreando os presentes “dando uma corrida” no parque mais próximo.

No dia seguinte, lá pelas onze horas da manhã lá estava ele chegando ao parque “envergando” o agasalho esportivo e usando o tênis novo. Tá certo que o calor já era insuportável mas tirar o agasalho nem pensar, já que além de estar se achando o máximo de elegância ele tinha a informação de que quanto mais suar melhor seria para perder peso.

A sessão de exercícios começou com uma série de penosas flexões abdominais, que se prolongaram até que literalmente seus músculos travaram. Grande conquista! No pain, no gain! isso ele sabia de cor. Levantar foi um sacrifício, já que aquela velha dor na coluna dava sinais que iria chegar com tudo. Agora uma corrida e era só ir para casa conferir o resultado na balança. 

Ao começar a correr o desconforto foi dominando nosso herói. A coluna dava agulhadas lancinantes, o tênis novo estava um pouco apertado e prometia bolhas nos calcanhares. Correr parecia não ter sido uma boa ideia, mas malhação é malhação. 

Entretanto o pior do desconforto era o calor que o sol já quase a pino provocava, com o agasalho preto se tornando uma verdadeira estufa (a cor preta emagrece dissera a esposa zelosa). Alguns minutos mais e ele já estava com a respiração ofegante, banhado em suor. De repente tudo escureceu! O acordar foi em susto. Ele estava em uma cama de hospital, rodeado pela família com os olhos arregalados, eletrodos no peito e soro na veia.

Calma, disse o médico a seu lado, felizmente nada de mais grave parece ter acontecido, apenas uma desidratação por perda excessiva de suor e uma sequela de lombalgia que exigirá um tratamento com anti-inflamatórios. As bolhas nos calcanhares era o de menos, afinal o filhão calçava um número a menos e seria o feliz proprietário do novo par de tênis.




Fonte:
Prof. Dr. Turibio Leite de Barros Neto